2 de mai. de 2010

Busca, Arbítrio e Justiça de Deus

Todos os homens buscam alegria. A procura da felicidade é um anseio fundamental, uma premissa vital de todos os homens em todos os lugares: “Adão caiu para que os homens existissem e os homens existem para que tenham alegria” (2 Néfi 2:25). Existimos – e isso é um fato inquestionável. Procuramos felicidade – e isso é um fato intrínseco a própria existência. Nós vivemos buscando felicidade: isso nos motiva a viver. Achar alegria infinita é o propósito da existência.


Deixando de lado a filosofia de homens – que desprezo por serem tão insuficiente quanto um sedento que sonha que bebe, mas acorda e esta ainda com sede (2 Néfi 27:3) – usarei da verdade para provar a importância de minhas palavras.

A verdade e liberdade.
A verdade é o conhecimento das coisas como foram, como são e como serão (Jacó 4:13, D&C 93:24). A verdade é Cristo (Enos 1:26, Alma 5:48, João 1:17). A verdade nos liberta (João 8:32): Cristo nos liberta! (João 8:36; 2 Néfi 9:19, 25- 26) O conhecimento da verdade (conhecimento de Cristo – de sua obra e glória), e aplicação desse conhecimento –que é sabedoria – é o que leva o homem a ter vida eterna, felicidade eterna (2 Néfi 2:27-28; D&C 42:61).

Todos nós buscamos liberdade e verdade – pois elas nos conduzem a alegria, a Deus. O propósito de vivermos e de toda criação é proporcionar alegria a Deus e a seus filhos (Moisés 1:39).

A verdade se encontra explicita nas escrituras sagradas (Helamã 15:7; 2 Timóteo 3:15-17). Elas serão a base para esse estudo. As escrituras falam de Cristo (João 5:39), regozijam-se em Cristo, pregam a Cristo e profetizam de Cristo; elas foram escritas para que procuremos a remissão de nossos pecados (2 Néfi 25:26). “E a remissão de pecados trás mansidão; e a mansidão e a humildade resultam na presença do Espírito Santo, o Consolador, que nos enche de esperança e perfeito amor, amor que se conserva pela diligência na oração até que venha o fim, quando todos os santos habitarão com Deus” (Morôni 8:26).

Habitar com Deus, como já expliquei, é ter infinita felicidade (Mosias 2:41). Essa alegria vem pelo viver digno (D&C 51:19). Ensinou o Salvador: “Se guardardes meus mandamentos, permanecereis no meu amor (...). tenho-vos dito isso para que minha alegria permaneça em vós, e vossa alegria seja completa.” (João 15:10-11)

Eis o maior axioma: o propósito da vida é usar o arbítrio o qual fomos investidos para escolhermos ter alegria. O arbítrio é a faculdade, vontade e o poder de escolher, ou “a habilidade e privilégio que Deus nos concede de escolhermos e agirmos por nós mesmos” (Arbítrio, GEE).


Justiça de Deus.

A Justiça de Deus é o conjunto de leis eternas que Deus segue . Essa Justiça estabeleceu as condições do arbítrio, e as sanções para as comissões e omissões dos seres que agem (1 Néfi 15:30, 2 Néfi 9:26, D&C 107:84, Romanos1:16-18, 28 e 32). A Justiça de Deus não pode ser negada, ela sempre existirá: “Se disserdes que não há lei, direis também que não há pecado. E se disserdes que não há pecado, direis também que não há retidão. E não havendo retidão, não há felicidade. E não havendo retidão, nem felicidade, não haverá castigo nem miséria. E se essas coisas não existem, não existe Deus. E se não existe Deus nós também não existimos nem a Terra; pois não poderia ter havido criação nem para agir nem para receber a ação; portanto todas as coisas inevitavelmente teriam desaparecido.” (2 Néfi 2:13). O profeta testificou ainda: “E agora, meus filhos, digo-vos estas poucas coisas para vosso proveito e instrução; pois existe um Deus e ele criou todas as coisas, tanto os céus como a Terra e tudo que neles há, tanto as coisas que agem como as que recebem a ação.” (2 Néfi 2:14)

Há duas grandes divisões na eternidade: coisas que agem e coisas que recebem a ação. As que agem são os filhos de Deus, e as que recebem a ação são as demais inteligências ou criações. No principio todos os filhos de Deus eram iguais, ou se achavam no mesmo nível de espiritualidade (Alma 13:5). Contudo com a dádiva do arbítrio permitiu-se o progresso, a felicidade e a retidão. Também se abriu caminho para a estagnação, infelicidade e pecado (Alma 42:16). Isso pôde acontecer por que Deus estabeleceu leis.

Sem leis não há ordem, e Deus é um Deus de ordem (D&C 132:8). Aplicando as palavras de uma revelação, que fala da organização do sacerdócio, para o contexto que estamos abordando: “ninguém estará isento da justiça e das leis de Deus, para que todas as coisas sejam feitas em ordem e com solenidade perante ele, de acordo com a verdade e justiça” (D&C 107:84).

A Justiça de Deus é o ordenamento de todas as coisas visíveis e invisíveis. As escrituras revelam que se Deus negar sua justiça, Deus deixa de ser Deus (Alma 42:13, 22). Por isso a obediência é a primeira, ou seja, o mais importante princípio dos céus: “Há uma lei, irrevogavelmente decretada nos céus, antes da fundação do mundo, na qual todas as bênçãos se baseiam – e quando recebemos uma bênção de Deus, é por obediência à lei na qual ela se baseia” (D&C 130:20-21).

Se hierarquizássemos as leis da Justiça Divina as mais importantes seriam os princípios. Os princípios são verdades fundamentais e simples que “incluem doutrinas, mandamentos, ordenanças e preceitos” (Manual do Casamento Eterno, pg. IX – prefácio). Os princípios são imutáveis e se aplicam as mais diversas situações. Eles sempre serão válidos.

Aqueles que obedecem às leis e princípios são abençoados, aqueles que não obedecem são amaldiçoados. Essa obediência ou desobediência só é possível por que possuímos o arbítrio (D&C 104: 42, Alma 3:18-19; Deuteronômios 11:26-29).

Brigham Young disse:“As leis eternas pelas quais o Senhor e todos os outros existem nas eternidades dos Deuses decretaram que se deve conseguir o consentimento de todas as criaturas para que o Senhor possa governar perfeitamente.” (DBY, pg. 65) As coisas que recebem a ação ou as criações que não são filhos de Deus, obedecem ao Senhor por que Ele é Deus – e vive toda a lei.

Percebemos que, no relato da Criação do mundo, os deuses ordenaram aos elementos e eles se organizaram (Abraão 4). “E os Deuses vigiaram aquelas coisas que eles haviam ordenado, até elas obedecerem” (Abraão 4:18, itálicos adicionados).

Torna-se evidente que as inteligências possuem arbítrio. Ainda que esse arbítrio não seja o mesmo que os filhos de Deus, pois há coisas que agem e outras que recebem a ação (2 Néfi 214) . O pó da Terra sempre obedece à voz de seu Criador (Mosias 2:25; Helamã 12:7-8). As seguintes escrituras sugerem o arbítrio de todas as criações:

“Toda verdade é independente para agir por si mesma na esfera em que Deus a colocou, como também toda inteligência; caso contrário, não há existência” (D&C 93:30). Essa escritura mostra que a existência é intimamente ligada ao arbítrio.

“E também, em verdade vos digo que a Terra vive a lei de um reino celestial, porque cumpre o propósito de sua criação e não transgride a lei” (D&C 88:25). Ora, se a Terra obedece é porque tem capacidade de obedecer.

“E havia diante do trono como que um mar de vidro, semelhante ao cristal. E no meio do trono, e ao redor do trono, quatro animais cheios de olhos, por diante e por detrás” (Apocalipse 4:6). Joseph Smith recebeu mais luz sobre esse assunto em Doutrina e Convênios 77:2-4 (itálicos adicionados):

“[Pergunta:] O que devemos entender pelos quatro animais mencionados no mesmo versículo? [Resposta:] São expressões figurativas empregadas por João, o Revelador, para descrever o céu, o paraíso de Deus, a felicidade do homem e dos animais e dos répteis e das aves do ar; o que é espiritual sendo à semelhança daquilo que é material; e aquilo que é material, à semelhança do que é espiritual; o espírito do homem à semelhança de sua pessoa, como também o espírito do animal e de todas as outras criaturas que Deus criou.”

“[Pergunta:] Os quatro animais limitam-se aos próprios animais ou representam classes ou ordens? [Resposta:] Limitam-se a quatro animais, individualmente, os quais foram mostrados a João para representar a glória das classes dos seres na ordem ou esfera de criação que lhes foi destinada, no gozo de sua felicidade eterna.”

“[Pergunta:] O que devemos entender pelos olhos e asas dos animais? [Resposta:] Seus olhos representam luz e conhecimento, isto é, eles são cheios de conhecimento; e suas asas representam poder para mover-se, para agir, etc.”

Os animais, em sua esfera, são cheios de conhecimento e são capazes de agir. Assim como as demais inteligências.

“A todos os reinos se deu uma lei. E há muitos reinos; pois não existe espaço em que não haja reino; e não existe reino em que não haja espaço, seja um reino maior ou um reino menor. E a todo reino é dada uma lei; e toda lei também tem certos limites e condições” (D&C 88:36-38). O universo, ou melhor, a obra de Deus é muito maior do que pensamos. As eternas leis e os diversos reinos (que podemos entender como as diversas dimensões, condições ou esferas) possuem seres inteligentes que possuem leis maiores ou menores e são capazes de reconhecê-las e obedecê-las.

Não entraremos mais no mérito do arbítrio de todas as inteligências, pela simples razão de que Deus decidiu não revelar muito sobre esse assunto. Usaremos a classificação de Leí dizendo que há coisas que agem (Deus e seus filhos) e outras que recebem a ação das coisas que agem (são as demais inteligências). Nada diremos sobre a possibilidade de desobediência de uma inteligência que não seja um filho espiritual de Deus, nem especularemos sobre se é possível Deus deixar de ser Deus – não mais do que dizem as escrituras. O pó sempre obedece a Deus, porque Deus sempre honra sua posição (Abraão 3:18-19; Moisés 7:48-49, 56, 58, 61-62; Helamã 12:6-21; Mórmon 9:19; 2 Néfi 2:13-14; Alma 42:13-, 22-23, 25, 30).

Arbítrio.
Aqueles que possuem arbítrio são agentes, pois agem: tomam decisões. Falamos aqui dos filhos de Deus.

As condições para a existência do arbítrio são: (1) todos (os agentes) podem escolher: investidura de capacidade para decidir (inteligência ou luz e verdade reveladas); (2) só um lado (de dois) pode ser escolhido: há opostos e há incapacidade de escolha simultânea entre eles; (3) todos devem e querem escolher, e neutralidade é uma escolha; (4) toda escolha gera conseqüências, toda ação corresponde a uma reação; (5) impossibilidade de alterar as conseqüências da escolha: o efeito irremediável; (6) há escolhas de pouca relevância e triviais, mas ainda assim geram conseqüências – escolha entre o bom e o bom ou entre o mau e o mau; (7) As conseqüências afetam o resultado final: levando a alegria eterna ou tristeza eterna – responsabilidade do agente pelo fim; (8) e por mais que haja pressão de se fazer escolhas há responsabilidade advinda da investidura – ninguém pode coagir alguém em última instância a agir: inexistência de compulsão.

Um rápido vislumbre sobre as condições de existência do dom do arbítrio mostrarão os aspectos mais importantes do Plano de Salvação de Deus.

1- Todos podem escolher: Todos os filhos de Deus são investidos com o arbítrio. Esse privilégio foi-lhes dado antes de nascerem nessa Terra, e viverem na mortalidade. Esse poder de escolha é que possibilita os homens adquirirem conhecimento e crescerem. Sem o arbítrio os filhos gerados por Deus não podem se tornar como Ele, possuindo a Vida Eterna, alegria eterna. Porque sem o poder de decidir não podem obedecer às leis; e sem a obediência a Justiça de Deus não há bênção.

Deus nos criou para que fossemos como Ele. As escrituras revelam que Seu propósito é levar os homens a exaltação. Exaltação é a condição de vida de Deus : Deus é um homem exaltado. Além Dele ser Todo-Poderoso é nosso Pai Celestial e nos ama. Por nós amar deseja concede-nos tudo que tem. Mas só pode fazê-lo, como já foi demonstrado, de acordo com a Divina Justiça.

Por essa simples e grandiosa razão investiu-nos com o arbítrio: para que escolhêssemos o certo para sermos abençoados para sempre.

Deus nós deu o arbítrio em uma ocasião passada, na pré-mortalidade. Esse arbítrio gerou diferenças entre os filhos de Deus, que a principio eram todos iguais – porque uns preferiam luz e verdade e outros não. Alguns progrediram muito, outros, nem tanto. Assim pode Deus escolher os nobres e grandes que nasceriam nessa Terra para serem governantes (Abraão 3:22-23).

Sabendo que as escolhas erradas poderiam ser feitas por seus filhos, Deus providenciou a Misericórdia, para salvar o arbítrio de seus filhos. A Misericórdia vem por meio de Cristo, que foi enviado a Terra para possibilitar que os homens sejam exaltados. Sem Cristo o arbítrio não existiria. Isso é verdade ao entendermos que sem Cristo não haveria opção de redenção, vida e liberdade. Daí a correta conclusão de que a verdade nós libertará. Porque sem Cristo a morte e o inferno exigiriam os filhos de Deus – que falham, pecam, e não tem poder de redimirem-se sozinhos.

A Misericórdia de Deus não pode roubar a Justiça, mas pode satisfazê-la. Um pecador deve pagar por seus erro, diz a Justiça. Não obstante, a misericórdia diz que um pecador não precisa pagar por seu erro se um outro o fizer. Cristo, o mediador, sofreu pelos pecadores, para que não precisassem receber a punição da Justiça. O entendimento da doutrina Justiça e Misericórdia é o ponto chave do plano de redenção. É também a mais importante doutrina para compreender o amor do Pai, a Expiação de Jesus Cristo e a santificação de seus filhos. É sobre essa doutrina que basicamente tratarei no decorrer desse estudo. Por ora, basta saber que Deus nos deu o arbítrio e concedeu meios de sempre desfrutarmos desse dom, por sua misericórdia.

Antes de nascer fizemos escolhas. Nesta vida fazemos escolhas, e se passarmos no teste mortal continuaremos a fazê-las. Não há ninguém, exceto as criancinhas e alguns filhos de Deus excepcionais (que não tem capacidade de discernimento) que não saibam suficiente para escolher. “Pois eis que o Espírito de Cristo é dado a todos os homens, para que eles possam distinguir o bem do mal” (Morôni 7:16). O Espírito de Cristo é a Luz de Cristo – uma influência que parte de Cristo e preenche todo o espaço. Todos os que nascem possuem a luz de Cristo. Uma das manifestações dessa luz é a consciência. Assim todos são responsáveis pelos seus atos.

2- Só um lado (de dois) pode ser escolhido. Há opostos. Sem opostos não há escolha. Deve existir o bem e o mal, a verdade e a mentira, o certo e o errado, o prazer e a dor, a alegria e a tristeza. “Porque é necessário que haja uma oposição em todas as coisas. Se assim não fosse, (...) não haveria retidão nem iniqüidade nem santidade nem miséria nem bem nem mal. Portanto é preciso que todas as coisas sejam compostas em uma; pois se fossem um só corpo, deveriam permanecer como mortas, não tendo vida nem morte, nem corrupção nem incorrupção, nem felicidade nem miséria, nem sensibilidade nem insensibilidade.” (2 Néfi 2:11)

3- Todos devem e querem escolher. Os homens foram colocados em condição de agir: “os homens são livres segundo a carne; e todas as coisas que necessitam lhes são dadas. E são livres para escolher a liberdade e a vida eterna por meio do grande Mediador de todos os homens, ou para escolherem o cativeiro e a morte, de acordo com o cativeiro e o poder do diabo (...)” (2 Néfi 2:27). Ou escolhemos a liberdade e a vida eterna ou o cativeiro e a morte. Não há como não escolher.

Vemos que há dois grandes poderes: o de Deus e o do diabo. Há dois grandes mestres, constantemente nos convidando a segui-los. Não podemos seguir a Deus e ao diabo: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro ou há de apegar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamon.” (Mateus 6:24). Ou escolhemos um ou outro.

A neutralidade é possível apenas quando não há conhecimento – onde não há lei, não há pecado. “E onde nenhuma lei é dada não há castigo; e onde não há castigo não há condenação; e onde não há condenação as misericórdias do Santo de Israel têm poder sobre eles, por causa da expiação; porque são libertados pelo poder dele.” (2 Néfi 9:25)

Quando há conhecimento não há campo neutro. Ou servimos a Deus ou ao diabo. Mesmo a inércia ou a ociosidade é uma escolha, no caso uma escolha diabólica.

Todos querem escolher. Naturalmente o homem defende e anela por liberdade, prazer e alegria. O elemento “busca” foi adicionado a todos os agentes. Assim como todos são livres, assim também todos buscam liberdade, conhecimento, alegria ou poder. Portanto aspiram escolher.

4- Toda ação corresponde a uma reação. Ao fazermos uma escolha geramos uma conseqüência. Nas palavras de Paulo: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia na sua carne, da carne ceifará corrupção; mas o que semeia no Espírito, do Espírito ceifará vida eterna” (Gálatas 6:7-8).

Uma pessoa que escolhe fumar terá problemas de saúde como conseqüência. Por mais que haja tratamentos médicos destinados a amenizar essas conseqüências, a conseqüência correspondente nunca deixará de existir.

Em outras palavras, uma escolha errada sempre produzirá maldição, e uma escolha certa sempre produzirá bênção. Evidentemente isso esta de acordo com a Justiça de Deus.

Se a misericórdia for levada em consideração, ainda assim as conseqüências do pecado não deixam de existir. Se alguém peca pode não receber a penalidade, por que Cristo, o mediador que concede misericórdia, foi penalizado em seu lugar. Nesse caso, a conseqüência do pecado foi transferida. Essa transferência acorre por causa da Expiação e das leis e ordenanças do evangelho, que serão demonstradas nos próximos capítulos.

Como vivemos juntos – vários seres que agem convivem – as escolhas de uns podem afetar a outros. De fato, as escolhas e conseqüências determinaram o tipo de mundo que vivemos e que viveremos.

Como vivemos num estado preparatório, algumas escolhas não surtirão efeito imediato. Na verdade não há lei que diga que toda ação corresponda a uma instantânea reação. A misericórdia acha espaço nessa brecha e concede um período para transferirmos as conseqüências de nossas más escolhas à Cristo. O tempo, que não existe para Deus, mas é medido pelos homens, é uma terna misericórdia que nos dá chance de escapar das garras da justiça pelas condições do Evangelho.

Por exemplo, um assassino e adúltero pode desfrutar de relativa paz e prosperidade terrena – sem ter que pagar pelos seus pecados enquanto estiverem no caminho – sem sofrer as conseqüências de suas más escolhas. Mas essas conseqüências os alcançarão e todos terão que pagar até o último senine (3 Néfi 12:25-26). Esse pagamento não será apenas por seus delitos, mas por terem recebido bênçãos sem merecerem. Terá um efeito ex tunc (retroativo).

5- O efeito é irremediável. Toda escolha gera conseqüências, e essas atingirão sua medida. É impossível impedir que um pecador seja punido. É impossível negar a um justo que seja abençoado. O trabalhador é digno de seu salário.

As não são conseqüências são impassíveis de mudança, pois elas podem deixar de existir para alguém (pecador) e ser transferidas (por meio das leis e ordenanças do evangelho) a outro (Cristo). Entretanto (os efeitos das escolhas) não deixam de existir – são transportados.

Como foi dito, por estarmos num estado de provação os efeitos das escolhas podem não chegar no tempo que julgamos ser adequados. E também os efeitos negativos, de escolhas alheias podem interferir em algum grau no arbítrio de outros. Por exemplo, um homem que intencionalmente fere outro deixando-o paraplégico, privará esse homem de desfrutar algumas escolhas e conseqüências que teria se não sofresse. Se esse homem ferido fosse um pai de filhos pequenos não poderia mais praticar esportes com eles. Deve-se imediatamente lembrar que por causa da Justiça de Deus e de Sua grande Misericórdia, o homem que sofreu o acidente terá o privilégio de brincar com seus filhos num tempo futuro se for fiel ou ao menos será recompensado por sua dor.

As prováveis interferências no arbítrio – como um homem ser escravizado – fazem parte do Plano de Deus. Catástrofes, adversidades, tribulações, provações de todos os tipos nos compelem a escolher – na verdade, sem as provas de arbítrio seria impossível seu exercício pleno.

Os efeitos de nossas escolhas e de outros, entrelaçadas, possibilitam o progresso e bem-estar, bem como a desgraça e a infelicidade.

6- Há escolhas de pouca relevância e triviais. Escolher uma peça de roupa de cor diferente pode ser uma escolha tão insignificante para um resultado final, como obter a exaltação ou a condenação, que podemos ser tentados a não considerar essa condição do arbítrio. Mas mesmo as escolhas pequenas são relevantes: “Podes supor que isso seja tolice de minha parte; mas eis que te digo que é por coisas pequenas e simples que as grandes são realizadas” (Alma37:6).

A peça de roupa de determinada cor pode ser carregada de um valor superior em relação à outra. Uma mesma peça de roupa pode ser moral ou socialmente bem aceita, enquanto outra, por ser de outra cor pode ser reprovada. Uma escolha pequena pode gerar conforto ou constrangimento.

Além disso, e mais importante, se a peça de roupa for indiscreta, revelando partes intimas os efeitos da escolha da pessoa que a usa serão negativos – gerarão um pecado. Assim uma escolha tão pequena pode gerar um resultado final muito grande: ser para sempre afastada da presença de Deus.

Conclui-se que as escolhas pequenas nem sempre são triviais – muitas vezes são vitais. Escolher pensar em algo pode ser determinante para a exaltação ou condenação: “Lembrai-vos que ter mente carnal e morte e ter mente espiritual é vida eterna” (2 Néfi 9:39).

Em suma há dois tipos de pequenas escolhas: escolhas, que embora diferentes gerem o mesmo resultado, e escolhas pequenas que geram resultados diferentes.

7- Responsabilidade do agente pelo fim: Os efeitos das escolhas são acumulativos, e em dado momento da existência contabilizarão um fim. Há dois resultados principais no fim do estado em que nos encontramos: salvação e condenação. Apesar de existir vários reinos de glória, e vários graus de salvação em cada reino, salvação sem exaltação é condenação – pois todos aqueles que não forem ao mais alto grau, estarão em desvantagem aos que obterem Vidas Eternas (D&C 132:4).

Aqueles que têm o arbítrio são suficientemente responsáveis pelo seu próprio fim, mas não são plenamente responsáveis. Explico. Se formos considerados dignos, por causa do bom uso do arbítrio, seremos salvos – mas não por nós mesmos, e sim “por meio dos méritos e misericórdia e graça” do Salvador Jesus Cristo (2 Néfi 2:8). Cristo dá a misericórdia, sem ela, as conseqüências de nossos erros exigiriam uma condenação proporcional. Mas para aqueles que fazem o que Ele pede, sua graça é suficiente (2 Néfi 25:23).

Vale fixar que Cristo só aplicará plenamente seu sangue expiatório aqueles que perseverarem até o fim. Cristo é quem diz quando é o fim. Isso significa que as conseqüências finais para as más escolhas só poderão deixar de existir quando as exigências da misericórdia estiverem sendo satisfeitas – quando Ele achar que está bom. As exigências para a Misericórdia são claras e simples: fé no Senhor Jesus Cristo, arrependimento, batismo por imersão, dom do Espírito Santo e perseverança até o fim (Alma 11:41). As exceções para o cumprimento desses requisitos são: as criancinhas com menos de oito anos de idade e os mentalmente incapazes.

Um caso deve ser entendido: certo homem, que procurava fazer o bem e cumpria suas obrigações, que Deus o tinha por justo e santo, acidentalmente matou uma pessoa. Ele terá que se defender perante as leis dos homens. Supúnhamos que sua defesa não foi convincente, e ele foi preso. O fim para este bom homem é o cativeiro – ele é responsável por esse fim?

Não. Não há carma, nem destino. Analisemos corretamente, já que nesse exemplo podemos saber mais no que nossos olhos são capazes de enxergar. Percebemos que o homem que matou é inocente a vista de Deus, e mesmo que sofra agravantes injustamente – e que morra na prisão como malfeitor – o seu fim ainda não ocorreu. O fim não vem com a morte. No Julgamento final esse homem receberá seu galardão. As injustiças serão corrigidas e Ele será indenizado pela Misericórdia de Cristo. O mesmo vale para o homem que morreu no exemplo – ele ainda será responsável pelo fim, mesmo que algumas oportunidades foram-lhe negadas pelo acidente. Todos são responsáveis pelo fim, independentemente de quem sejam e do que fazem e das pressões e circunstâncias esperadas ou não.

8- Ninguém pode coagir alguém em última instância a agir.

Um caso extremo: um assaltante aponta a arma para a cabeça de um individuo. A lei dos homens dirá, que o assaltante esta compelindo a vitima a fazer o que ele ordenar (sair de um carro, efetuar um saque em dinheiro, assinar um contrato, etc.). Mas no fundo não há verdadeira coação. O homem tem escolha: obedecer ao assaltante ou não. Se ele recusar o assaltante morrerá.

O exemplo de três virgens martirizadas, mencionadas na Perola de Grande Valor, que se recusaram a negar o verdadeiro Deus, mostra que nem a ameaça de morte as obrigou a fazer uma escolha (Abraão 1:11-12).

Mesmo que as circunstâncias sejam tais que digamos que não tínhamos escolha – sempre, neste estado terreno, temos escolhas.

É verdade que um viciado em drogas tenderá a agir de determinada maneira a manter seu vicio. Mas se ele escolher parar com aquilo poderá parar. E quando for curado, por Cristo, mesmo que haja pressão social ou diabólica para que volte a usar drogas poderá não escolher fazê-lo.

Há correntes filosóficas, morais e religiosas que defendem que não há arbítrio e outras que dizem que alguns dos pontos apresentados aqui não são verdadeiros. Sinceramente eu desprezo seus argumentos.

As escrituras revelam que temos o arbítrio e que viemos a essa Terra fazer escolhas e que ninguém esta previamente destinado a se tornar um Deus ou um diabo. Embora existam diferentes pontos de vista, e as tendências e mutações devam ser levadas em consideração quando falamos em decisões, creio que delineei os aspectos mais importantes sobre a realidade do poder de escolha que cada um de nós desfruta.

Não preciso provar, mais do que já expus, que as afirmações acima são verdadeiras. Eu poderia recorrer a mais exemplos e me aprofundar mais no tema, mas esse não é o objetivo desse estudo. Cada leitor poderá fazer tal julgamento por si mesmo.

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